Zona Litigiosa b- Mantena e Barra de São Francisco
Estou
até imaginando a reação do leitor desavisado: “Que título mais descabido! Minas
e Espírito Santo em guerra? De onde o caboclo tirou esse disparate? Coitado.
Deve estar passando por uma síndrome aguda de falta de assunto pra sair
inventando tamanha lorota!” Lorota nada! Pode parecer mentira, invencionice de
contador de causo sem assunto, mas mineiros e capixabas já pegaram em armas
para lutar entre si e por pouco, muito pouco mesmo, não promoveram uma sangria
desatada. O pior, pasme, é que o fato não aconteceu num passado remoto, não.
Foi somente cinco décadas atrás, entre os anos 50 e 60. Debite-se a culpa pelo
quase total esquecimento desse grave episódio ao nosso sistema educacional.
Mais sofrível que joelho de freira em Semana Santa, ele dá pouquíssima
importância ao ensino da história espiritosantense e é por isso que boa parte
das novas gerações jamais ouviu sequer falar da chamada “Questão Lindeira”,
Zona Litigiosa , um dos nomes oficiais (o outro é “Contestado”), dados à
disputa fratricida de divisa entre os dois estados, cujo epicentro ocorreu ali
pelas bandas dos municípios de Barra de São Francisco, Mantenópolis ES e
Mantena MG.
A solução final só aconteceu em setembro de 1963, através de
um acordo firmado pelos governadores do Espírito Santo, Francisco Lacerda de
Aguiar e de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Até lá, entretanto, em diversas
ocasiões ocorreram atritos entre tropas mineiras e capixabas, resultando, do
nosso lado, na morte de um cabo e cinco soldados da Polícia Militar. Em abril
de 1948, por exemplo, chegaram em Vitória informações de que a região litigiosa
estava sendo invadida por tropas mineiras. Um batalhão da nossa PM, sob as
ordens do capitão Josias Gonçalves de Aguiar, ocupou Barra de São Francisco e
seus arredores. A ação não resultou em nenhuma morte, felizmente, mas no
decorrer dos próximos anos, a questão foi ganhando amplitude, devido a
interesses pessoais de grupos econômicos mineiros e de políticos e fazendeiros
locais. Para se ter uma idéia do ponto a que o ânimo guerreiro chegou, a
manchete do jornal O Diário, de Vitória, em 24 de julho de 1957, era: “IMINENTE
A GUERRA CIVIL!”. Bias Fortes, o então governador mineiro, deslocara rumo a
Mantena quatro mil soldados bem armados. Para fazer frente a esse numeroso
contingente, o Espírito Santo, estado bem menor e carente de recursos, só
conseguiu reunir 400 homens. Liderados pessoalmente pelo Coronel Pedro Maia,
comandante da Polícia Militar, eles deixaram o Quartel de Maruípe e foram se
entrincheirar durante 34 dias na região montanhosa a oeste de Barra de São
Francisco. À certa altura, a coisa ficou feia de verdade e um combate de
grandes proporções só não aconteceu graças a interferência do governo federal,
que enviou ao local uma missão de paz chefiada por um coronel do Exército.
-Pobre coronel. Para seu azar (e aqui começa a parte saborosa
do causo de hoje), ele teve que lidar com os humores azedos do Caboclo Marabô.
Eu explico. Caboclo Marabô era a entidade que usava como “cavalo” o Cabo PM
Gildásio, enfermeiro da tropa capixaba que seguiu para o front e pai de santo
nas horas vagas. O coronel inspecionava a soldadesca formada em sua homenagem,
quando, de repente, tromba com um negão enorme de gordo saindo de uma barraca
com um charuto na boca e o uniforme todo desalinhado. O coronel lê seu nome na
camiseta e pergunta, furioso: - “Cabo Gildásio! O que significa isso?” Na maior
calma, Gildásio solta um peido estrondoso, atira na cara do coronel uma
baforada de fumaça fedorenta e responde num vozeirão de encruzilhada: - “Gildágio
é a putaquitipaiu! Meu nome é Maiabô. E qué xabê do que mais, coroné xafado?
Tua pomoxão a generá, rá, rá, num vô dexá xaí!”
- “Preeendam esse homem!” berrou o coronel. Não adiantou
nada. Prenderam o Cabo Gildásio, mas Marabô ficou solto e a tal promoção nunca
saiu. Mesmo tendo contribuido para a paz entre mineiros e capixabas, o coronel
morreu coronel. Nunca chegou a general.
Fonte-Internet.
Edivaldo Machado Lima/ Causos da Zona Litigiosa.
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