Causo pique esconde na zona litigiosa

Antigamente por motivos de festas, novenas, terços, ou às vezes, simplesmente pelo prazer de passar horas agradáveis conversando, as famílias moradoras de vilas agrícolas, povoados ou na roça, tinham o costume de se visitarem e até "pousar" na casa de parentes e amigos, indo embora só no outro dia a tarde.
-Dentre as muitas visitas dos parentes amigos ou compadres o senhor Ivo Coimbra conta de uma visita à casa de seus amigos no interior de Barra de São Francisco ES., lembra-se especialmente de certa vinda de alguns irmãos e amigos trazendo seus filhos para a reza de um terço.
-Era uma verdadeira festa o encontro da “primaiada”. Durante o dia a turma andava a cavalo, jogava bola no campinho de terra, pulava no monte de palha de café, caçava ninhos de galinha no mato, brincava com os gatos, nadava no corguinho, corria pelo quintal, subia em árvores, comia fruta no pé. Se fosse tempo de mexerica a presença era notada de longe. Época de manga então, não se comia outra coisa, só manga o dia todo!
-Criança de roça estava sempre faltando uma unha do dedão, tinha pés cheios de espinhos, pernas e braços arranhados, mas, era feliz! Senhor Ivo Coimbra conta que não esqueceu uma vez em que a meninada brincava a sombra de uma aroeira desobedecendo á recomendação de que ficássem longe daquela árvore. O Zequinha, querendo mostrar coragem esfregou várias folhas no rosto. O menino ficou irreconhecível de tão empipocado e com a cara inchada e vermelha.
-No fim do dia, após a janta, as mulheres conversavam sentadas no banco grande da cozinha. Falavam de tudo: Fazeção de polvilho, receitas de doces e biscoitos, chás para todas as doenças... Na sala os homens falavam de política e trabalho. Lembro-me do Sr Manoelzinho, sempre exagerado. Ele chegava a subir na mesa para falar!
-À noite, no terreiro enluarado, corríamos atrás dos vagalumes, coisa emocionante! Além disso, entre as nossas brincadeiras estava o Chicotinho queimado, rapa tacho a Barra manteiga, porém, o preferido era Pique-esconde. Um participante ficava com rosto na parede e contava até vinte e um bem devagar, enquanto o resto da turma se escondia espalhando-se por todo canto. Seria vencedor o último a ser encontrado.
-Num desses dias, eu e um casal de amiguinhos fomos nos esconder pros lados da varandinha do paiol. Ali se guardavam arreios dependurados, tuias, latas antigas de guardar manteiga, tachos, caixas de madeira e couro, cordas, laços e várias ferramentas. Tinha até abóboras maduras amontoadas num canto.
-Sugerimos que o Zequinha se amoitasse dentro de uma das caixas vazias e colocamos a tampa por cima. Depois cada um de nós procurou um lugar seguro e se escondeu também.
-A brincadeira estava muito divertida e durou até altas horas quando fomos chamados pelas mães. Era hora de dormir. Nos quartos os colchões de palha estalavam de tão cheios, anunciando um sono cheio de sonhos.
-Horas mais tarde acordei assustada e chamei o colega que dormia perto de mim.
—João, acorda! Nóis esquecemos o Zequinha dento da caixa na varandinha do paiol !
—Minha nossa, Tadim dele deve tê murrido sem ar!
Era madrugada quando saímos pé ante pé, para não acordar ninguém. Levando uma lamparina, seguimos pelo terreiro, indo em direção ao paiol e à varandinha dos arreios.
Com o coração apertado rezávamos para que o amiguinho Zequinha ainda estivesse vivo. Assim que abrimos a caixa, Zequinha acordou assustado e esfregando os olhos sonolentos, disse:
—Caramba!... Fui campeão do pique esconde! Ninguém achô ieu amoitado nessa caxa, né memo? Rsrsrsr.
-Edivaldo Machado Lima-


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